sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Liga acusa: há bombeiros com fatos impróprios na linha de fogo

Ignorância e falta de dinheiro motivam compra de fatos que não estão preparados para proteger bombeiros, embora sejam resistentes ao calor.
Há centenas de bombeiros portugueses a ir para a linha de fogo com fatos impróprios para o combate aos incêndios. Quem o garante é José Ferreira, membro do conselho executivo da Liga dos Bombeiros Portugueses. "Infelizmente, no mundo dos bombeiros portugueses usam-se materiais que dizem ser resistentes ao calor, mas são para outras profissões", explica o responsável, que justifica as más escolhas com "ignorância" e "falta de dinheiro" nas corporações.

Um fato de bombeiro para incêndios florestais certificado pode custar entre 150 e 200 euros. E um fato contra incêndios urbanos, mais resistente, pode ir até aos 600 euros. "Como é que há corporações a comprar fatos a 70 euros?", questiona José Ferreira, sublinhando que "os bombeiros devem aprender a comprar o seu equipamento".

O responsável, que falava à margem da apresentação do primeiro fato português, o PT 2.0, afirmou mesmo que "muitas vezes os bombeiros compram gato por lebre". O equipamento de protecção individual, para ser 100% seguro, tem de estar de acordo com a norma europeia EN-469, que regula o tipo de componentes e de propriedades que os EPI (equipamento de protecção individual) têm de ter para serem seguros. "O que nos preocupa mais é que os nossos homens possam ir para o fogo devidamente equipados com fatos para bombeiros, não com fatos parecidos", afirma José Ferreira.

Questionado sobre a extensão do problema em Portugal, o responsável não quantificou, mas foi dizendo que "há muitas corporações assim. Demasiadas". Segundo o que explicou ao i o comandante dos Bombeiros Sapadores de Vila Nova de Gaia, Salvador Almeida, o problema é mais frequente nos municípios que não têm bombeiros profissionalizados.

"Os nossos equipamentos são todos em Nomex [fibra que protege contra calor e chama] e custam muito dinheiro à câmara", afirma o comandante. "Nos municípios sem bombeiros profissionalizados, são as associações que pagam os fatos. E muitas vezes não há dinheiro", completa.

Outro dos inconvenientes dos fatos certificados é que pesam vários quilos e são menos confortáveis no combate às chamas. "Basta olhar para as imagens das televisões e ver que há bombeiros em T-shirt, seguramente mais leves e frescas mas que envolvem riscos", adianta Salvador Almeida, referindo-se à exaustão provocada pelo calor intenso e pela inalação de gases tóxicos.

Entre as várias corporações de bombeiros voluntários com que o i falou, nenhuma admitiu usar fatos impróprios no combate a incêndios. Os bombeiros voluntários de Paço D''Arcos, por exemplo, referem que há "vários equipamentos diferentes", mas que todos os que são usados pelos seus profissionais respeitam as normas europeias.

Pelo lado da Liga dos Bombeiros, que tem tentado divulgar informação para impedir que os bombeiros usem fatos próprios para siderurgias ou outras actividades semelhantes, seria importante "rever a portaria" que define os equipamentos. "Pode-se comprar muita coisa que diz que é para bombeiros, mas se não respeitar as normas 469 e 15 614, não serve", alerta José Ferreira.
ionline

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